Not for the season

Agosto 28, 2009

O verão vem chegando, e eu não antevejo a queda na minha atividade leitora anunciada pelo Jeff Tweedy.

Das leituras que tem me empolgado:

Silvio Gallo, Deleuze e a Educação


Comprei na minha última ida à Porto Alegre, por ocasião do Congresso Internacional de Educação na Unisinos. Devorei o livrinho em pouco tempo, e depois o reli em busca de passagens para tomar nota e conceitos nos quais deveria me aprofundar. Uma ideia que tirou o sono, no bom sentido, foi a transposição de Sílvio Gallo do conceito de “rizoma” para dentro do universo da educação.
Conforme Deleuze, em entrevista publicada no jornal “Liberácion”,

O que Guattari e eu chamamos rizoma é precisamente um caso de sistema aberto. Volto à questão: o que é filosofia? Porque a resposta a essa questão deveria ser muito simples. Todo mundo sabe que a filosofia se ocupa de conceitos. Um sistema é um conjunto de conceitos. Um sistema aberto é quando os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências. Mas por um lado os conceitos não são dados prontos, eles não preexistem: è preciso inventar, criar os conceitos, e há aí tanta invenção e criação quanto na arte ou na ciência.

Esta relação entre conceitos e circunstâncias que caracteriza um sistema aberto (e por consequência, um rizoma), é perfeitamente relacionável com a maneira como funciona o hiperlink (que é fundamentalmente o meu instrumento de trabalho).

Suely Rolnik, Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo

Encontrei a Suely por causa de um texto que foi crucial pra que eu finalmente compreendesse o que é a subjetividade para Deleuze e Guattari.

Arriscarei uma hipótese: a concepção de subjetividade de Deleuze e Guattari, implicada em sua teoria da clínica (a qual, por vezes, eles chamaram de “esquizoanálise”), faria eco a um dos princípios constitutivos das subjetividades no Brasil. Chamarei esse princípio de “antropofágico”, trazendo para a esfera da subjetividade, e reinterpretando, aquilo que o Movimento Antropofágico apontou no domínio da estética e da cultura brasileiras.

Interessante. O conceito me atravessou no momento em que a Suely o reterritorializou, comparando-o a algo que já era familiar para mim (a antropofagia, conceito tão querido a mim e a tantos outros estudantes de arte). Era disso que Deleuze falava, quando falava em fazer rizoma, conexões, trabalhar o “entre dois”?

O livro Cartografia Sentimental – que chegou em minhas mãos através da minha orientadora Rosária Sperotto, em uma edição muito bonita, diferente da que ilustra este post – me fala de um fazer-cartografia que vai em busca de “mergulhar na geografia dos afetos e, ao mesmo tempo, inventar pontes para fazer sua travessia: pontes de linguagem.”

Exato o que pretendo. A leitura vem sendo energizante. :)

Esta minha recente familiarização com as ideias de Deleuze tem me mostrado que que ele é o mais perto que eu vou chegar de uma unified theory of everything. Espero, enfim, ainda estar por aqui quando o século for finalmente Deleuziano.

Estava lendo este post do Orlando, no blog Netnografando, e fiquei pensando nesta questão que ele coloca. Folksonomia é subjetividade?

Curiosamente, a questão me atinge enquanto estou em busca de uma metodologia de organização para as minhas leituras e estudos. A arquitetura de informação, meu principal campo de atuação profissional, me instrumentalizou com alguns conceitos e (por que não?) cacoetes referentes à organização das coisas. Para um exemplo disso, basta olhar no meu flickr como é o papel de parede do meu computador.

No meu novo computador, criei uma estrutura de pastas para organizar as leituras.

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Enquanto organizava estas leituras, várias falhas no meu método apareceram. Vários textos a serem armazenados comporiam, tranquilamente, o conteúdo de duas, três pastas criadas. Eu precisaria de um sistema de palavras-chave, ou de organização pela metainformação para dar conta desta característica dos textos. Então, resolvi instalar uma wiki no meu computador, onde poderei armazanar o conteúdo estudado de forma mais rizomática, anti-hierárquica. Folksonômica?

A folksonomia (e também a minha taxonomia pessoal, enquanto crio e organizo pastas pessoais) é uma manifestação da minha subjetividade, enquanto se produz (e se manifesta) em espaços individuais, coletivos e institucionalizados. Eu “tagueio” o conteúdo para mim e para os outros; tagueio para não me perder dele, e tagueio para que os outros possam encontrá-lo e saber que já passei por ali. Os links guardados no meu delicious mapeiam os meus interesses pessoais, os meus modos de pensar, as minhas afinidades temáticas. Se eu organizar meus links cronologicamente, inclusive, percebo como meus interesses metamorfoseiam-se ao decorrer dos dias, meses, anos (sou uma usuária antiga do delicious). É possível me cartografar pela maneira como organizo a informação que acesso, que guardo, que compartilho.

Hoje eu li este texto do Paul Virilio que me fez ficar pensando por horas. Li assim que percebi que a Gabi tinha compartilhado no Google Reader, e passei a manhã trabalhando com a ideia do Virilio rodando “em segundo plano”. Fui almoçar e voltei; agora as ideias já parecem mais disformes, e resolvi registrá-las aqui antes que elas percam a forma completamente.

Quantas vezes somos acometidos por essa perda de empolgação em um tema, à medida em que o tempo passa? Logo, o pensamento – que parecia tão importante – se dissolve e é substituído por outro, que é mais “novidade” do que o que vínhamos pensando antes. Acontece muito comigo: estou pensando em um assunto enquanto tomo banho, quando vou dormir (between the click of the light and the start of a dream), enquanto preparo meu café da manhã ou caminho de volta pra casa, no fim de um dia do trabalho. Antes mesmo que eu possa registrar minha interpretação daquele tópico, num arquivo de texto ou numa página do meu caderno de notas, já há algo que pensei depois daquilo; já há uma atualização do pensamento primeiro, ou até mesmo um conceito inteiro completamente novo.

Pois é quase disso que Virilio fala em seu texto. Ao dizer que “o imediatismo é o contrário da informação”, ele fala comigo e minha tendência ao deslumbramento, a sempre olhar para o (novo) ponto cada vez mais brilhante que surge no horizonte. Ele cita o caso do uso do twitter pelos manifestantes contra a fraude na eleição do Irã. Por algum tempo, o tema ocupou as Trending Topics no Twitter. O inesperado – neste caso, a morte do Michael Jackson – desviou boa parte das atenções dos usuários da plataforma, que, enquanto eu escrevo este texto, ocupa-se também com os lançamentos dos novos filmes Harry Potter and The Half-Blood Prince e Brüno. “Lamentamos universal e instantaneamente a morte de deus show-biz, e o Irã foi forçado a sair do futuro imediato.”
Mas o que isso diz sobre nós hoje, e como podemos mudar essa condição a ponto de que o imediatismo não engula a democracia possivel na internet? Como não sermos hipnotizados pela “propaganda do progresso”, que nos seduz à ilusão de que estamos participando ativamente – até que um novo acontecimento nos desvia? Virilio fala que precisamos de uma “economia política da velocidade.” Precisamos aceitar a existência do aceleramento e da desconstrução do tempo, mas não podemos aceitar que o imediatismo engula a densidade e a riqueza de informações que a Internet nos oferece. Aquela nossa inteligência já não nos serve. “Precisamos de uma inteligência coletiva hoje”.

Junho 23, 2009

Dentro deste sistema, todos nós temos nossas vidas regradas por nossos horários de trabalho e/ou horários de aulas, assim como pelos horários de funcionamento do transporte público e do comércio, etc.  Essa organização das nossas vidas, que começa na infância, exerce um controle sutil mas profundo sobre todos nós: nós chegamos a esquecer que o tempo de nossas vidas é nosso para gastar como escolhermos, ao invés de pensar em termos de dias de trabalho, horas de almoço, e finais-de-semana. Uma vida verdadeiramente expontânea é impensável para a maioria de nós; e o chamado tempo “livre” é normalmente apenas tempo que foi reservado para fazer outra coisa que não trabalhar. Com que freqüência você vê o sol nascer? Quantas vezes você passeia em belas tardes ensolaradas? Se você tivesse a oportunidade inesperada de fazer uma viagem bacana neste fim-de-semana, você poderia ir?

No seu blog O Cético, Marcelo Kalil publicou esta tradução de um trecho do livro Days of War, Nights of Love