Entre os Muros da Escola
Junho 22, 2009
Quando eu tinha cerca de 13 anos de idade, assisti ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Passam-se os anos e volto a retornar a este filme, pois foi nele que vi, pela primeira vez, a figura do professor com quem eu queria aprender (e, em última análise, o professor que eu queria ser).
No filme, Robin Williams interpreta um professor de língua inglesa que, ao ser contratado para lecionar na escola (particular, tradicional e autoritária) onde um dia foi estudante, acaba por influenciar seus alunos – todos miniaturas de seus pais, com seu futuro calculado rumo a uma carreira de sucesso – a buscarem um verdadeiro sentido em suas vidas. A figura daquele professor subversivo, capaz de fazer seus alunos se apaixonarem verdadeiramente pela literatura a ponto de incorporarem-na completamente, fazia-me pensar “é isso o que eu quero fazer!”
Durante minha passagem pela faculdade, os professores que mais me motivaram assemelhavam-se à figura daquele professor de língua inglesa. Eram professores cujo amor pelo que lecionavam era tão grande que tornava-se contagioso. Não havia como não contaminar-se pelo discurso deles. O professor de história da arte, que dava aula com slides e com memória, e que emocionava-se semestre após semestre ao mostrar-nos as obras que realmente o impressionavam. O professor de pintura, que tinha tanto a compartilhar conosco que não parava de falar mesmo enquanto pintávamos, deixando-nos sempre em dúvida: devíamos ouví-lo ou devíamos pintar?
Pois se eu tivesse 13 anos hoje, e ao invés de assistir Sociedade dos Poetas Mortos eu assistisse Entre os Muros da Escola, talvez eu passasse a pensar diferente. Talvez, ao invés de ver o professor como uma força unificadora, capaz de despertar nos alunos aquela vontade transformadora que eu via nos personagens de Sociedade dos Poetas Mortos, eu passasse a ver o professor como a imagem da impotência e da resignação.
O que mais me doeu, ao assistir Entre os Muros da Escola, foi reconhecer as situações como perfeitamente plausíveis. Foi ver cada cena como se eu estivesse lá, na sala de aula, ora no papel do professor, ora no papel do aluno. Foi ver que ninguém na história é herói ou bandido: os alunos resignam-se à sua situação e exteriorizam suas frustrações violentamente. O professor decepciona-se com os estudantes, por quem se interessa genuinamente, e resigna-se ele também, desistindo de “fazer a diferença” e rejeitando-os com ironia e escárnio.
Entre os muros da escola o realismo não assume tom documental, mas faz mediação ao não parecer uma construção. Entre os Muros da Escola não há jovens uniformizados, fugindo à noite de seus alojamentos para encontrarem-se num esconderijo e ler poesia. Entre os muros da Escola não há a figura do professor apaixonado, falando com a voz embargada a respeito daquilo que realmente o comove, tornando sua voz hipnótica àqueles alunos que passam a espelhar-se nele. Entre os muros da escola, ninguém chamará o professor por “o captain, my captain”. Entre os Muros da Escola, não há rebeldia de meninos brancos contra a opressão do sistema educacional. Em 2009, seja na França, no Brasil ou onde for, não há mais libertação pela desobediência. O que se apresenta, no espaço mostrado entre os muros da escola, é a incapacidade da escola de tornar-se um espaço significativo para aqueles que, em teoria, ela se propõe a acolher.