Engraçada a maneira como parece que as coisas nos perseguem quando estamos pensando nelas. Twist your head around, it´s all around you.
Hoje topei com essa entrevista do Pierre Levy ao G1. Levy está genuinamente interessado em sistematizar um protocolo para “automatizar a inteligência coletiva”.

Portanto, o que precisamos é de uma metalinguagem, que possa ser completamente manipulável por sistemas automáticos e, ao mesmo tempo, possa ser usada para expressar qualquer tipo de ideia, ponto de vista ou teoria. Se ela limitar a expressão de uma teoria, ou de uma interpretação, não serve. Pelo contrário: ela deve ajudar a aumentar a diversidade de pontos de vista. Talvez não seja a língua que eu criei que será a base dessa revolução científica, mas haverá algo nesses moldes. E eu acredito que devemos iniciar em breve as primeiras tentativas.

Outra passagem interessante (puxando brasa para o meu assado):

No momento, eu chamo essa pessoa de “engenheiro semântico”. Há um lado de engenharia e um lado de ciências humanas. É algo que vai requerer um treinamento especial, provavelmente, mas como todas as profissões. Eu reconheço que, no momento, esses profissionais não existem. Algumas pessoas estão se autodenominando “arquitetos da informação” ou “engenheiros de conhecimento”. Então já surgem, de forma dispersa, os primeiros núcleos de profissionais dessa área, o que significa que não vamos partir do zero. Mas, claramente, mesmo esses profissionais de agora precisarão evoluir. Mesmo porque estou falando do futuro, de coisas que não existem ainda agora.

Recomendo fortemente a leitura. :)

Not for the season

Agosto 28, 2009

O verão vem chegando, e eu não antevejo a queda na minha atividade leitora anunciada pelo Jeff Tweedy.

Das leituras que tem me empolgado:

Silvio Gallo, Deleuze e a Educação


Comprei na minha última ida à Porto Alegre, por ocasião do Congresso Internacional de Educação na Unisinos. Devorei o livrinho em pouco tempo, e depois o reli em busca de passagens para tomar nota e conceitos nos quais deveria me aprofundar. Uma ideia que tirou o sono, no bom sentido, foi a transposição de Sílvio Gallo do conceito de “rizoma” para dentro do universo da educação.
Conforme Deleuze, em entrevista publicada no jornal “Liberácion”,

O que Guattari e eu chamamos rizoma é precisamente um caso de sistema aberto. Volto à questão: o que é filosofia? Porque a resposta a essa questão deveria ser muito simples. Todo mundo sabe que a filosofia se ocupa de conceitos. Um sistema é um conjunto de conceitos. Um sistema aberto é quando os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências. Mas por um lado os conceitos não são dados prontos, eles não preexistem: è preciso inventar, criar os conceitos, e há aí tanta invenção e criação quanto na arte ou na ciência.

Esta relação entre conceitos e circunstâncias que caracteriza um sistema aberto (e por consequência, um rizoma), é perfeitamente relacionável com a maneira como funciona o hiperlink (que é fundamentalmente o meu instrumento de trabalho).

Suely Rolnik, Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo

Encontrei a Suely por causa de um texto que foi crucial pra que eu finalmente compreendesse o que é a subjetividade para Deleuze e Guattari.

Arriscarei uma hipótese: a concepção de subjetividade de Deleuze e Guattari, implicada em sua teoria da clínica (a qual, por vezes, eles chamaram de “esquizoanálise”), faria eco a um dos princípios constitutivos das subjetividades no Brasil. Chamarei esse princípio de “antropofágico”, trazendo para a esfera da subjetividade, e reinterpretando, aquilo que o Movimento Antropofágico apontou no domínio da estética e da cultura brasileiras.

Interessante. O conceito me atravessou no momento em que a Suely o reterritorializou, comparando-o a algo que já era familiar para mim (a antropofagia, conceito tão querido a mim e a tantos outros estudantes de arte). Era disso que Deleuze falava, quando falava em fazer rizoma, conexões, trabalhar o “entre dois”?

O livro Cartografia Sentimental – que chegou em minhas mãos através da minha orientadora Rosária Sperotto, em uma edição muito bonita, diferente da que ilustra este post – me fala de um fazer-cartografia que vai em busca de “mergulhar na geografia dos afetos e, ao mesmo tempo, inventar pontes para fazer sua travessia: pontes de linguagem.”

Exato o que pretendo. A leitura vem sendo energizante. :)

Esta minha recente familiarização com as ideias de Deleuze tem me mostrado que que ele é o mais perto que eu vou chegar de uma unified theory of everything. Espero, enfim, ainda estar por aqui quando o século for finalmente Deleuziano.

Estava lendo este post do Orlando, no blog Netnografando, e fiquei pensando nesta questão que ele coloca. Folksonomia é subjetividade?

Curiosamente, a questão me atinge enquanto estou em busca de uma metodologia de organização para as minhas leituras e estudos. A arquitetura de informação, meu principal campo de atuação profissional, me instrumentalizou com alguns conceitos e (por que não?) cacoetes referentes à organização das coisas. Para um exemplo disso, basta olhar no meu flickr como é o papel de parede do meu computador.

No meu novo computador, criei uma estrutura de pastas para organizar as leituras.

new-3

Enquanto organizava estas leituras, várias falhas no meu método apareceram. Vários textos a serem armazenados comporiam, tranquilamente, o conteúdo de duas, três pastas criadas. Eu precisaria de um sistema de palavras-chave, ou de organização pela metainformação para dar conta desta característica dos textos. Então, resolvi instalar uma wiki no meu computador, onde poderei armazanar o conteúdo estudado de forma mais rizomática, anti-hierárquica. Folksonômica?

A folksonomia (e também a minha taxonomia pessoal, enquanto crio e organizo pastas pessoais) é uma manifestação da minha subjetividade, enquanto se produz (e se manifesta) em espaços individuais, coletivos e institucionalizados. Eu “tagueio” o conteúdo para mim e para os outros; tagueio para não me perder dele, e tagueio para que os outros possam encontrá-lo e saber que já passei por ali. Os links guardados no meu delicious mapeiam os meus interesses pessoais, os meus modos de pensar, as minhas afinidades temáticas. Se eu organizar meus links cronologicamente, inclusive, percebo como meus interesses metamorfoseiam-se ao decorrer dos dias, meses, anos (sou uma usuária antiga do delicious). É possível me cartografar pela maneira como organizo a informação que acesso, que guardo, que compartilho.