re-arrange
Julho 26, 2009
Que devo ser eu, eu que penso e que sou o meu pensamento, para eu ser o que eu não penso, para que o meu pensamento seja o que eu não sou?
(Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, surrupiado daqui)
#lingerieday
Julho 24, 2009
Uma das razões pelas quais foucault, a quem eu sei que o túlio conhece bem, me é caro – além de ter me ensinado a não tomar interpretações por fatos, e de ter me mostrado que relações de poder têm um jogo, que não são unilaterais, que o processo de sujeição, por ser processo, tem um caráter temporal que guarda sua vulnerabilidade – é por ter mostrado que o corpo não é uma unidade monolítica posta desde sempre; que ele tem uma historicidade, como tem a própria separação entre corpo (ou forma) e alma (ou mente ou consciência ou conteúdo, como queiram). Algumas feministas já mostraram como essa separação e subsequente hierarquização – a alma é diferente, e é melhor que o corpo – tem vínculo com os gêneros, ali onde a mulher se situa no campo vil e inferior da matéria, e o campo mais nobre, elevado e digno de respeito da linguagem, da razão, é masculino. Mas eu também sou meu corpo, Túlio, não menos que esse conjunto de sinapses que agora se materializa – oh, a matéria; mas, ufa, essa pode – na produção desse post. E eu, corpo e alma, rosto e bunda, forma e conteúdo, problematizo essa separação e essa valorização de um em detrimento do outro, e reivindico minhas capacidades cognitivas e deliberativas independentemente da instância minha – inexoravelmente minha – que eu boto na porcaria do meu avatar do twitter. seja ela da minha bunda, do meu dedão do pé, do lacinho da minha calcinha ou de um bule de chá.
relações de poder não são simples: entendê-las como uma imposição simples e unilateral que emana de um foco único fixo e coerente e recai sob um oprimido passivo nem começa a dar conta do recado. e esse modo de funcionamento é a sua fragilidade; sempre pode ser ressignificado. uma pessoa fisicamente constrangida – pra continuar no foucault – não participa em uma relação de poder. mas aí a figura percebe sua própria feminilidade como parte de uma rede de relações de poder e passa a ler o mundo identificando as relações de poder que se estabelecem sem problematizá-las. que se dão entre “homens” e “mulheres”, opressores e oprimidas. Pra ver uma mulher de corpo exposto sempre como um “pedaço de carne”, para reduzi-las a seus corpos sempre ali onde eles se manifestam, é preciso acreditar que mulher só pode se expressar através da palavra, através de discursos articulados, porque seus corpos estão condenados a conformar-se com uma lógica que lhes oprime; é preciso acreditar que quem gosta de minissaia e decote e corpo exposto de mulher é homem, e uma mulher de decote é apenas o símbolo da supremacia do desejo masculino (ali onde todo o desejo é sempre masculino).
Trecho do excelente post da Lu Bom sobre o #lingerieday no Twitter.
o melhor trending topic dos últimos tempos da última semana
Julho 13, 2009
Hoje eu li este texto do Paul Virilio que me fez ficar pensando por horas. Li assim que percebi que a Gabi tinha compartilhado no Google Reader, e passei a manhã trabalhando com a ideia do Virilio rodando “em segundo plano”. Fui almoçar e voltei; agora as ideias já parecem mais disformes, e resolvi registrá-las aqui antes que elas percam a forma completamente.
Quantas vezes somos acometidos por essa perda de empolgação em um tema, à medida em que o tempo passa? Logo, o pensamento – que parecia tão importante – se dissolve e é substituído por outro, que é mais “novidade” do que o que vínhamos pensando antes. Acontece muito comigo: estou pensando em um assunto enquanto tomo banho, quando vou dormir (between the click of the light and the start of a dream), enquanto preparo meu café da manhã ou caminho de volta pra casa, no fim de um dia do trabalho. Antes mesmo que eu possa registrar minha interpretação daquele tópico, num arquivo de texto ou numa página do meu caderno de notas, já há algo que pensei depois daquilo; já há uma atualização do pensamento primeiro, ou até mesmo um conceito inteiro completamente novo.
Pois é quase disso que Virilio fala em seu texto. Ao dizer que “o imediatismo é o contrário da informação”, ele fala comigo e minha tendência ao deslumbramento, a sempre olhar para o (novo) ponto cada vez mais brilhante que surge no horizonte. Ele cita o caso do uso do twitter pelos manifestantes contra a fraude na eleição do Irã. Por algum tempo, o tema ocupou as Trending Topics no Twitter. O inesperado – neste caso, a morte do Michael Jackson – desviou boa parte das atenções dos usuários da plataforma, que, enquanto eu escrevo este texto, ocupa-se também com os lançamentos dos novos filmes Harry Potter and The Half-Blood Prince e Brüno. “Lamentamos universal e instantaneamente a morte de deus show-biz, e o Irã foi forçado a sair do futuro imediato.”
Mas o que isso diz sobre nós hoje, e como podemos mudar essa condição a ponto de que o imediatismo não engula a democracia possivel na internet? Como não sermos hipnotizados pela “propaganda do progresso”, que nos seduz à ilusão de que estamos participando ativamente – até que um novo acontecimento nos desvia? Virilio fala que precisamos de uma “economia política da velocidade.” Precisamos aceitar a existência do aceleramento e da desconstrução do tempo, mas não podemos aceitar que o imediatismo engula a densidade e a riqueza de informações que a Internet nos oferece. Aquela nossa inteligência já não nos serve. “Precisamos de uma inteligência coletiva hoje”.